Cicatrizes

Sentada no ônibus a caminho da faculdade com as mãos sobre a bolsa comecei a analisar uma delas. Minha atenção foi direcionada a uma cicatriz de uns 3 cm na base do meu dedo indicador esquerdo e foi inevitável não recordar da situação em que a “adquiri”. Lembrei de uma mulher que vi há alguns meses, as pernas e braços dela estavam repletos de cicatrizes. Quando a vi comecei a imaginar que situação ela teria passado, um acidente automobilístico? Uma tentativa de assassinato? Um incêndio? Não cheguei a falar com ela pra lhe questionar, mas percebi que aquelas cicatrizes têm uma história. Cada cicatriz em nós possui uma história. Nem chegamos a olhá-las na maioria dos nossos dias, mas quando nos atentamos lembramos a dor ou o medo a que fomos submetidos.
Comecei a pensar nas outras cicatrizes que tenho pelo corpo e percebi que eu lembrava de como ganhei cada uma. A do meu dedo indicador me acompanha há 11 anos, mas me recordo da dor que senti quando a faca me acertou quando eu tentava descascar um pedaço de cana para um evento na escola durante a terceira série. Tenho uma cicatriz na minha cabeça que somente a cabeleireira vê e quando chegam a perguntar eu recordo, mesmo que vagamente pois só tinha 5 anos, de minha mãe correndo comigo nos braços com a cabeça ensanguentada e de alguns flashes da chegada ao hospital. No entanto, as cicatrizes não trazem apenas lembranças ruins. Como nunca fui uma garota radical (risos) não possuo cicatrizes que me fazem lembrar da alegria de ganhar alguma corrida com obstáculos ou prêmio, mas muitas pessoas têm.
Bem, por que eu comecei a falar de cicatrizes? Naquela manhã no ônibus também comecei a analisar as cicatrizes não físicas, mas emocionais em nossa vida. Aquelas que ninguém vê, mas estão em nossos corações e quando tocadas nos remetem à dor. Depois de um corte, ou quando lembramos da dor que ele nos causou, passamos a tomar mais cautela ao segurar um objeto cortante ou podemos nem segurar mais, devido ao trauma. Assim acontece em nossa vida. Depois de uma ferida na alma podemos ficar cautelosos (o que é bom) ou traumatizados e não nos deixarmos sentir emoções mais. Podemos, também, usar as lembranças das cicatrizes para ensinar outras pessoas ou desestimulá-las.
Assim como Jesus usou suas cicatrizes para provar aos incrédulos que realmente havia sobrevivido podemos usar as nossas para provarmos que sofremos, mas nos recuperamos e podemos fazer melhor que antes. Ele poderia simplesmente ter deixado Tomé sem ver suas cicatrizes, poderia relembrar toda dor que sofreu na cruz, ter ficado magoado por tanta incredulidade e se retirado daquela reunião com os discípulos desacreditado da humanidade. Contudo, fez de suas cicatrizes a prova do perdão, da humildade e da mais linda história de amor do mundo.
Em sua vida pode ter sido a dor da traição por parte de um amigo, pode ter sido o remorso e mágoa do abandono por parte dos pais ou a dor do fim trágico de um namoro ou casamento que deixaram cicatrizes profundas na alma. Não depende de como foi dolorido, do quanto a lembrança ainda pode doer. Depende de uma tomada de atitude sua. Você pode escolher o que fazer com seus traumas, e quer saber? Dor gera mais dor, desapegue e seja leve.
Como diz a música de Rodolfo Abrantes, que das suas feridas (ou da lembrança delas) saia poder pra curar!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s