Toma lá da cá?

Como dizia o poeta inglês John Donne: “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme“.

Sete anos atrás numa aula de filosofia do ensino médio essa frase me ajudou a perceber uma verdade a qual eu nunca mais esqueceria: Todo ser humano está rodeado e entrelaçado em relacionamentos!

Não temos como fugir deste fato e, ao passo que crescemos, percebemos como os relacionamentos são importantes e têm um papel significativo em nossa vida. Imagine a vida sem relacionamentos: Esqueça a família, os amigos-irmãos da adolescência, as colas e as histórias engraçadas dos tempos de faculdade, as oportunidades super importantes na vida profissional vindas da indicação daquele amigo, vida amorosa, curtir os netos peraltas na velhice, e por aí vai… Tudo está ligado aos nossos relacionamentos e, se estes tem um papel tão fundamental na nossa vida e definem aspectos que muitos consideram vitais para a felicidade, vale a pena pensar em como gerenciamos os relacionamentos que estamos inseridos. Aqui entra a filosofia do toma lá da cá.

As relações sociais são regidas por regras implícitas que nós, muitas vezes, nem percebemos mas seguimos ao pé da letra. Pare pra pensar… Quando alguém te trata bem, você logo se sente na obrigação – ou talvez apenas sente vontade mesmo – de tratar essa pessoa bem também. Quando alguém te paga um lanche e logo depois pede um favor, da uma pena dizer não e você logo se sente pressionado a atender o pedido. Quando você talvez prefere não ir a um aniversário só pelo constrangimento de não poder presentear o aniversariante visto que ele(a) te presenteou no seu último aniversário… Essa “rede de reciprocidade” – que as vezes construímos até inconscientemente – nos guia e define a maneira como nos relacionamos com aqueles a nossa volta. Prestígio, respeito, favores, boas ações – e, até, más ações pois, afinal, tenho todo e qualquer direito de odiar meus inimigos – se alinham ao nosso toma lá da cá.

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Enquanto existe uma total expectativa para que ajudemos aqueles de dentro de nossa rede de reciprocidade, não somos nem um pouco obrigados a sair de nosso caminho para fazer favores a estranhos. Daí atos aleatórios de bondade para com estranhos serem tão surpreendentes! (Donald B. Kraybill)

Talvez você concorde com a filosofia do toma lá da cá. A palavra “reciprocidade” até soa um tanto quanto bonita e justa aos ouvidos de uma sociedade que se julga tão politicamente correta. Porém esta regra social generalizada é simplesmente contrária ao que Jesus nos apresenta e nos desafia a viver. Ele chega e vira tudo de ponta cabeça! Proclama uma vida governada pelo amor. Um amor puro, ousado e que nos desconstrói em nosso profundo egoísmo.

Jesus confronta a norma da reciprocidade radicalmente:
“Que mérito vocês terão, se amarem aos que os amam? Até os ‘pecadores’ amam aos que os amam. E que mérito terão, se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os ‘pecadores’ agem assim. E que mérito terão, se emprestarem a pessoas de quem esperam devolução? Até os ‘pecadores’ emprestam a ‘pecadores’, esperando receber devolução integral.” (Lucas 6.32-34).

Em outras palavras, o amor verdadeiro vai muito além da reciprocidade. Vai muito além de devolver sorrisos com sorrisos ou favores com favores. O amor nos tira do pedestal e nos apresenta o caminho do serviço altruísta.

É com essa consciência que tento levar para minha vida três verdades que o livro “Reino de Ponta Cabeça” (Donald B. Kraybill) perfeitamente enfatiza:

  • Primeiro, a iniciativa agora é nossa!

Ao invés de esperar para devolver um favor, damos o primeiro passo pois Deus já nos favoreceu. “Foi Ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima para que, por meio dEle, os nossos pecados fossem perdoados.” (1Jo 4,10). Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5.8). Ele é que tomou a iniciativa e nos alcançou com seu amor e misericórdia. Ele abdicou de sua glória. Ele age primeiro! Ele corre nosso caminho pródigo e nos abraça. Ele estende seu amor incondicional. Toda a glória a este Deus de amor, poderoso e misericordioso!

Nós, uma vez que recebemos tão grande dádiva, retribuímos nossa dívida para com Deus, espalhando a iniciativa amorosa aos outros. Agradecemos amando os outros.

  • Em segundo lugar, o amor ágape serve aos outros, independente do seu status.

Esse amor ignora qualquer segregação que tenhamos em mente. Sirva os amigos íntimos e os que são desconhecidos também. Os que nos ajudam e os que não nos ajudam também. Amigos e inimigos. Bem quistos e marginalizados. Cientes que “…o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20.28), nossa vida se torna uma oferta de serviço queimada no altar das necessidades do próximo.

  • Em terceiro lugar, o amor ágape não espera por um retorno.

Não esperamos nada em troca pois Deus já tomou a iniciativa e nós já fomos pagos! O reino de ponta cabeça mais uma vez nos desafia nos levando para fora do centro de nossas ações. Não é uma troca, é uma alegre resposta a todo o amor e misericórdia que fora primeiro derramado sobre nós.

Jesus deixa isso bem claro:
“Então Jesus disse ao que o tinha convidado: ‘Quando você der um banquete ou jantar, não convide seus amigos, irmãos ou parentes, nem seus vizinhos ricos; se o fizer, eles poderão também, por sua vez, convidá-lo, e assim você será recompensado. Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos.'” (Lucas 14:12-14)

Quando esperamos retorno, transformamos os destinatários do presente em clientes. Quando não esperamos em retorno, os libertamos da dívida. (Moxnes)

É hora de iniciar uma nova fase em sua vida. Se desafie a sair do centro e viver como aquEle que nos amou primeiro. Ame! Sirva. Viva o evangelho. Tome a iniciativa. O reino de Deus se torna real quando Ele governa nossos corações e relações sociais. Religiosidade e duas horas no domingo a noite nunca foram o alvo de Cristo. Lembre-se que em nossa própria força nós não conseguiremos e ore ao Espírito Santo. Clame. Peça ajuda àquele que frutifica o amor em nós (cf. Gl 5. 22,23).

Por último, oro pra que possamos nos achegar mais a Cristo. Que sejamos moldados pelo seu reinado em nossas vidas. Que o amor assertivo possa substituir a reciprocidade. Que o perdão e a misericórdia possam eliminar pouco a pouco o toma lá da cá. Amém.


One thought on “Toma lá da cá?

  1. Show, mto importante que entendamos um pouquinho do amor que Jesus tentou ensinar, pra que possamos nos esforçar pra ser um pouco mais parecidos com a ele e não morrer como “Gabriela”. Essa é uma motivação pessoal como cristão, querer ser cada vez mais parecido com ele, e tentar transmitir um pouco do que ele fez por nós

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